´A´ Festa do Cacau Tony Neto e Eu
Nos idos 1985 o sul da Bahia ainda vivia época de ouro do cacau e eu trabalhava na Rádio Baiana de Ilhéus. Rádio AM de pequeno alcance tocada pelos sonhos e esforços de Tony Neto e seus filhos. Uma loucura. Improviso quase que total. Era uma guerra manter a rádio no ar. Faltava grana, técnicos, os locutores eram estagiários, um caos, disfarçado pela garra de Tony que fazia de tudo. Tudo mesmo. Eu, sempre otimista, vendia os espaços comerciais e sonhava em fazer da rádio baiana uma emissora de vanguarda.
Um belo dia Tony estava pensativo e me segredou que obtivera a informação de que aconteceria a Festa do Cacau em outubro e que a Bahiatursa- empresa de turismo do Estado da Bahia- estava prevendo uns 30 eventos durante o período da festa. Claro que junto com esses eventos estavam previstas verbas para todos eles.
Matutamos muito e buscamos informações, muita discrição já que quem conhecia os detalhes não nos daria de bandeja. Foi aí que chegamos na idéia de irmos pessoalmente a Salvador e, com toda cara de pau, procurarmos a equipe da Bahiatursa. E fomos. Dinheiro só da gasolina. Eu ficaria hospedada na casa de minha mãe, ele se viraria com amigos.
Chegamos na Bahiatursa ansiosos e inseguros. Não tínhamos o que propor, já que não conhecíamos o projeto. Após muita simpatia conseguimos ser recebidos pelo diretor de operações, Chico Hupsel. Simpático e vaidoso ele se mostrou surpreso com a nossa iniciativa e, conversa vai, conversa vem, fomos nos inteirando dos eventos que ele ia descrevendo como quem descreve os filhos, tamanha era a empolgação. Eu e Tony nos olhávamos e anotávamos tudo enxergando cada possibilidade de negócio.
Hupsel nos pediu que retornássemos à tarde para participarmos de uma reunião com a equipe toda, quando seriam apresentados por cada membro, os avanços rumo à realização da festa e as conseqüentes necessidades existentes.
Voltamos à tarde no horário combinado e, nem precisa dizer, cheios de possibilidades na ponta das línguas para apresentarmos e propormos parcerias (naquela época ainda não se usava esse termo). Tony e eu tínhamos sentado numa lanchonete e discutido milhares de possibilidades de atuação da nossa equipe de profissionais (eu, ele e Emanoel - seu filho).
A reunião começou e nós fomos ouvindo cada membro da equipe desfiar seu rosário de lágrimas diante das dificuldades de encontrar prestadores de serviços para contratarem. E para cada um deles dizíamos, às vezes eu, às vezes Tony: A rádio baiana presta esse serviço. Eu ia anotando cada item contratado e os valores respectivos dos serviços. Por fora, tal qual jogadores de pôquer, ambos não demonstrávamos a empolgação e a cada item solicitado, agíamos como se fosse absolutamente natural para nós realizarmos tudo aquilo.
Para encurtar a conversa, que foi muito longa, saímos da Bahiatursa às sete da noite com uns vinte serviços diferentes para prestarmos durante o período da festa, que duraria dez dias. Só não sabíamos como fazê-lo, nem por onde começar. Deveríamos voltar no outro dia às dez da manhã para assinar o contrato onde estaria tudo discriminado.
Só para citar, nos comprometemos em: realizar totalmente a 1ª Ginkana do Cacau; sonorizar com 200 caixas de som e serviço de som ao vivo uma extensão de 1 km; fazer cobertura jornalística de todos os 20 eventos; carro de som volante; Tony seria o locutor Mestre de Cerimônias de todos os eventos; a rádio ficaria 24 horas no ar, durante o período da festa; daríamos flashs ao vivo a cada 30 minutos, durante um período de 12 horas por dia; o nosso trio elétrico tocaria todas as noites por quatro horas e nos dois finais de semana durante o dia nas praias; veicularíamos chamadas para os eventos durante 06 meses; e por aí vai...
A pior parte: não tínhamos sequer uma caixa de som, nem trio elétrico, nem jornalistas, nem linha para fazer ao vivo, nem equipe para manter a rádio 24 horas no ar, nem equipamentos que agüentasse esse repuxo. Os transmissores ainda eram a válvulas, pode? Outra coisa, esquecemos de ver que muitos eventos aconteciam ao mesmo tempo, em lugares diferentes, o que exigia que tivéssemos várias equipes trabalhando ao mesmo tempo.
A melhor parte: fechamos um detalhado contrato, depois de muita negociação, de muito choro nosso para recebermos a maior parte antecipada. O valor total era esplendoroso: CR$ 200.000.000,00.
Saímos da Bahiatursa boquiabertos com nossa capacidade de negociação e percebemos que a equipe da Bahiatursa estava aliviada de se ver livre de tantos pepinos. Mas ao entrarmos no carro começamos a nos acusar de loucos. Como iríamos realizar isso tudo??????? Gente, acredite, foi muita loucura mesmo.
A partir daí fomos direto pro Terreiro de Jesus comprar equipamentos para começarmos a construir as caixas de som. Para confeccionarmos 200, precisaríamos de muito espaço, mão de obra e tempo. Para comprarmos prontas precisaríamos de um dinheiro que não possuíamos.
Fomos e compramos uma montanha de tuíteres, auto-falantes e outros trecos que só Tony sabia. Eu estava com muito medo e não podia ajudar nessa parte, a não ser negociando os prazos, os valores e emprestando meus cheques. Fizemos uma festa de cheques pré-datados. E compramos uma primeira etapa de material e rumamos pra Ilhéus.
Voltamos despejando milhares de ideias de como resolvermos as questões em uns momentos e em silêncio profundo, em outros. E o que se viu a partir daí foram seis meses de trabalho desenfreado, sem folgas, 12 horas por dia, no mínimo.
E o resultado? Os registros estão na história. Um sucesso total, muita adrenalina, muita histeria, muita alegria, e o sabor do sucesso e da vitória pelo trabalho. Esqueci de contar que, além desses resultados, saímos da festa com um serviço de som completo e um trio elétrico para fazermos tantas outras festas, carnavais e micaretas.
Passados 35 anos Tony se foi, eu estou aqui reflexiva de como é importante acreditar, ser determinado, perseguir e gostar do que se faz, desde que de forma lícita, ética e positiva. Hoje os seis filhos de Tony e eu seguimos a vida, de alguma forma, com frutos daquela Festa do Cacau e a imensa saudade daquele sonhador, empreendedor, amigo e pai que foi um grande exemplo.
E para o povo de Ilhéus que tinha consigo a imagem do Tony Neto mulherengo e farrista- duas verdades, aproveito para informar que ele foi o primeiro grande amigo que encontrei após o meu divórcio, que me acolheu, empregou e ensinou a sonhar e acreditar que podemos tudo, desde que lícito. E pasmem, ele jamais me “cantou”. Foi para mim, órfã de pai, um grande irmão mais velho, de quem eu covardemente não tive coragem de me despedir.
A autora Elza Ramos é publicitária, pedagoga e iyalorixá